quarta-feira, 4 de março de 2009

Tempestade de Âmbar em pleno Março...

Hong Kong está estranha. Há dias, tudo muito cinza e perdido na névoa. Da minha janela, nem vejo a Central. Olho o computador e acho o aviso do Observatório Central: tempestade "âmbar", o primeiro estágio do tufão... Em pleno Março? Hong Kong está estranha.

"DISPATCHED BY HONG KONG OBSERVATORY AT 16:13 HKT ON 05.03.2009

AMBER RAINSTORM WARNING SIGNAL

***Amber Rainstorm Warning Signal Special Announcement issued at 4:10 p.m.
***The Rainstorm Warning Signal is now Amber. This means that heavy rain has fallen or is expected to fall generally over Hong Kong, exceeding 30 millimetres in an hour, and is
likely to continue.
***There will be flooding in some low-lying and poorly drained areas. People who are likely to be affected should take necessary precautions to reduce their exposure to risk posed by the heavy rain and flooding.
***Members of the public are advised to pay attention to weather changes as these might lead to Red or Black warning signal situations. Those who have definite duties during rainstorms should be prepared.
***Please listen to radio or watch television for traffic conditions and further announcements on the rainstorm. "...
Melhor ficar em casa...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Melancia com Cerveja

Gente, acordei. Deve ter sido a eleição do Obama que provocou o prodígio. Depois de alguns meses completamente bloqueada (e desblogueada...), sem vontade de escrever. No início achei que tinha sido o ar quente do verão da Toscana, o conforto do interior da Itália, tão brasileiro que quase me fez esquecer a Ásia. Passado o sopro de ar quente, a bagunça familiar das ruas e o desleixo tão familiar do ambiente que me tinham tirado o assunto, continuei sem assunto.

De volta, encontrei Hong Kong tão quente quanto antes, esbaforida com o caos dos mercados, respirando o bodum do verão atrasado, ainda achando que a cor da estação carregava na tinta do que se passava em volta. Opinião? Nenhuma. Novidade? Tantas que acabei por engessar o processamento, embasbacada com o castelo de cartas caindo na minha frente, tão frágil, tão frágil...

Hoje os Estados Unidos chegaram mais perto da África – não dá para esquecer que agorinha mesmo, no Quênia, vivem cinco ou seis meio-irmãos do presidente da América. Pensando bem, há muito ainda que processar antes disso. Há hipotecas não pagas, dinheiro descendo pelo ralo. Há gente do povo perdendo tudo e se perguntando como foi que o nada que tinham de repente se tornou tudo. Tudo o que se foi. E há gente com medo de ter que devolver bônus de sete, oito dígitos. Em dólar.

Da última vez que escrevi aqui, Beijing esperava as Olimpíadas. Os mercados pululavam de dois em dois dígitos e todo mundo ainda preferia só olhar um lado das coisas. Hipoteca era ainda uma coisa muito americana e o Lula ainda brincava de marolinha. Ah, as reservas da China ainda não tinham batido os dois trilhões de dólares, e os Estados Unidos do Bushinho também não se viam estatizando bancos, mandando as liberdades dos mercados às favas.

No meu prédio, os andares de 23 a 27 ainda eram ocupados por um banco (?) chamado Lehman Brothers; as meninas magérrimas, maquiadas e hiper-produzidas ainda passavam horas nos elevadores, incessantemente buscando um bom banqueiro que lhes desse guarita. Ah, e do 30 ao 32 ainda víamos as placas da Nomura Securities, corretora japonesa, pessoas da Nomura japonesa, cheias de formalidades também muito japonesas.

Hoje, ao acordar, percebi que não mais existe aquele Lehman Brothers e que, com exceção do nosso andar e mais um outro, do 23 ao 32 agora passeiam meninas de novo muito magrinhas, maquiadinhas, igualmente buscando aquele banqueiro que lhes dê guarita. Com a marca Nomura de cabo a rabo. Falando japonês com sabor de cantonês, tão desajeitadas nos seus kimonos imaginários! Alguém precisa avisar a elas que o número de zeros à direita, nas contas dos eleitos, diminuiu significativamente... assumindo, inocentemente, que ainda existem os tais banqueiros.

E o 29? Ah, o 29. Ainda ontem ganhou um apêndice. É, ali também. A placa do meu andar de trabalho, como tantas outras, descobriu que tem data de validade. Ainda não mudou. Mas em breve aposto que ganha um hífen e mais oito letras... mas pelo menos esses apêndices vieram com alguns bilhões de valor de mercado a mais. Bilhões que valem trilhões, se considerarmos que o resto do mundo anda mesmo é solapando tudo que pode e o que não pode. Ai, ai. Também, o que se queria? Continuar igual enquanto o mundo todo mudou de eixo e direção? Continuar exalando que “eu fui feito prá você!” enquanto o mundo se virou de cabeça prá baixo em menos de "30 horas"?

Mas ainda há a China. Ah, a China. Pegue-se 100 medalhas, 51 delas de ouro. Continue-se “desacelerando” a uns 8% ao ano. Conquiste-se uma população de 280 milhões de habitantes com renda igualzinha à dos Estados (des) Unidos da América. Ah, e ainda se use 50% do cimento e do aço do mundo. Tudo bem, 30%, vai. Mas mantenha-se metade das gruas do mundo no seu quintal, construindo, quem sabe, um futuro melhor para seus bilhões de cidadãos. Sustente-se a esperança de tantos que acreditam que tudo o que se faz ali ainda há de ajudar a segurar o resto do mundo. E olhe para si, doméstica e global.

Finalmente, aceite o estranhamento maior: acabando a noite, invariavelmente coma melancia com cerveja, mostrando que Shanghai também sabe lançar moda. Suspire e reclame, mas atenda ao apelo do mundo e compre mais uns 200 bilhões de dólares de títulos do Governo do Baraquinho. Junte tudo, respire fundo e cante de novo aquele “Beijing, huan nin nin...”.

Isso mesmo: que cante a China, todos os dias e incessantemente, o hino das Olimpíadas: “Bem vindo a Beijing”... e que bem vindos todos sejam, à ainda intocada "Terra da Esperança". Melancia com cerveja, poluição com pó de ouro. Saravá, meu pai!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

"Não Cuspirás nas Vias Públicas!"...

A chegada das Olimpíadas está promovendo um mutirão de civilidade na China. Do tipo de pregação que beira a evangelização dos desavisados, que tenta catequizar todos que pegam o metrô nas grandes cidades, que viajam de ônibus para os subúrbios, que assistem TV, que acessam a internet, que andam no lombo de burro pelas montanhas do Tibete. Ui! Acabei falando o que não devia. O Tibete sumiu do mapa depois dos eventos em Sichuan. O terremoto serviu para deletar os monginhos de bata laranja protestando pelo direito de surrupiar impostos dos incautos antes que o Governo Central o fizesse. Mas isso é outro assunto... hoje queria falar um pouquinho sobre os bastidores da recepção impecável que os chinocas estão preparando para o mundo.

Volto um pouquinho no tempo, aliás bastante, para uma tarde de muito choro na minha primeira visita a Shanghai em 1994. Animadíssima com a novidade, em pleno verão, me vesti com um vestidinho de algodão do tipo que deixava as pernas de fora, para enfrentar corajosamente os 38 graus de calor abafados pelos prédios do centro da cidade. O resultado da aventura foi -- além da frustração de não conseguir comprar o meu vestido chinês, devido a uma imputada obesidade "ocidental" -- voltar para o hotel com as pernas completamente lambuzadas de cusparadas lançadas sem dó nem piedade, consequência do hábito mais característico da população local. Aliás, nada de local, cuspir nas vias públicas é um dos hábitos mais disseminados neste canto do planeta. Aliás-de-novo, o hábito vem, dizem, da medicina chinesa. Ou vem a medicina chinesa do hábito. O fato é que não importa a origem: o povo daqui cospe e expele tudo que o corpo não deseja conter... Decidi poupar os amigos do capítulo sobre os gases, até porque estes foram excluídos da cartilha do governo sobre a "etiqueta das Olimpíadas". Ai, ai. Consolem-se os visitantes, nem tudo serão aromas na passagem pelo Império do Centro... Mas vamos lá.

Fiquei sabendo, por um amigo que visitou Beijing na semana passada, que há cartazes por todos os lados, em puro mandarim, ensinando o povo a se comportar para receber o mundo. Em outras instâncias, a batalha é completamente inglória: invasão de algas onde acontecerão competições de iatismo, enxames de gafanhotos ameaçando dizimar os jardins... E do lado do povo, há gente criando golpes para vender ingressos inexistentes, clones do I-phone sendo vendidos em cada esquina.

Mas o império revida: trancam-se os carros nas garagens, as indústrias são paralizadas; onipresente, a polícia sai com tanques de guerra esmagando zilhões de cópias de DVDs de um dólar. E tomem-se todas as cartilhas. Ou seja, o controle total e absoluto (sobre até o mais improvável) se mostra mais do que nunca uma questão de Estado. E enquanto o Bushinho tira fotos junto ao Hu Jintao prometendo comparecer ao Ninho do Pássaro no 8 de agosto, as formiguinhas locais zelam pelas vias e, principalmente, o povo treina para ser o que não é. Paradoxalmente, ressinto a tentativa de mudança. Bela lição nos daria a China, se ousasse simplesmente ser o que é.

Mas é isso aí: enquanto aguardamos o 8 de agosto, vale publicar os dez mandamentos do Governo Central. E então observar o esforço. Não cuspir? Não apostar!?!??! Não tenho dúvidas que Beijing vai estar pronta para o mundo. Resta saber o que o mundo vai levar da verdadeira Beijing...

"OS DEZ MANDAMENTOS"*

1 - Proteger a propriedade intelectual e não comprar ou vender produtos olímpicos piratas;

2 - Proteger os símbolos olímpicos e não abusar do uso da bandeira e do hino nacional;

3 - Memorizar as normas de tráfego: não furar sinal vermelho!

4 - Respeitar filas e evitar aglomerações;

5 - Cuidar do meio ambiente e não cuspir na via pública;

6 - Não maltratar os monumentos históricos (especialmente não escrever nomes nas pedras da Grande Muralha);

7 - Não fazer algazarra dentro dos estádios olímpicos;

8 - Não jogar lixo no chão, atirar garrafas, nem levar sua própria bebida para dentro dos estádios;

9 - Não revender entradas como cambista nem fazer apostas;

10 - Conhecer melhor a legislação da cidade e não alterar a ordem pública com um comportamento inadequado;

*(tradução livre da jornalista Juliana Vale, em Beijing)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ninhos de Pássaros

Hoje, lendo nos sites do UOL e da Globo, vi a jornalista Glória Maria falar dos métodos que usa para "emagrecer", "rejuvenescer" ou "não envelhecer"... Sem entrar no mérito da coisa (me parece algo como evitar doenças crônicas, se curar da pestilência...), quase morri de rir. Ela fala da sopa de ninho de passarinhos. Um amigo brasileiro, que se aventurou a tomar a tal sobremesa, não guarda boas lembranças. Muito comum aqui em Hong Kong (ninhos de pássaros em sopa de leite de côco, com fragmentos de ovários de rã) a coisa quase matou o meu amigo, de desinteria. Sim, sim. D. Glória Maria deve estar perdendo peso de maneiras nada heterodoxas. Fica aqui para registro.

Link para a notícia no UOL:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u421931.shtml

13/07/2008 - 12h05
"Glória Maria toma sopa de ninho de passarinho para rejuvenescer

da Folha Online / João Miguel Júnior (TV Globo)

'A jornalista Glória Maria --de férias da TV Globo há sete meses-- toma "mais de cem pílulas por dia" e faz até sopa com ninho de passarinho trazido da Tailândia para rejuvenescer'

Glória Maria toma 100 pílulas por dia e sopa com ninho de passarinho para rejuvenescer. A informação é da coluna Mônica Bergamo, publicada na Folha deste domingo (13). Segundo Bergamo, Glória Maria está escrevendo dois livros, planeja um terceiro, quer gravar um CD e diz não sentir falta do "Fantástico", pois não gostava mais de "fazer aquilo".

A coluna afirma ainda que a jornalista também dedica seu tempo aos exercícios, às festas e a encontrar amigos pelo mundo. No mês passado, ela participou da festa da demolição do hotel Royal Monceau, em Londres, foi a um casamento no Marrocos e tomou sol em St. Tropez"...

Deve ser uma delícia passar a vida a "encontrar amigos pelo mundo"... um dia chego lá. Ahn, mas sem ninhos de passarinhos. Isso eu dispenso.

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"Bird´s Nest": uma tradição em Hong Kong... com manga e côco

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No Hui Lau Shan: o melhor no pedaço (?): não fui lá conferir...

domingo, 13 de julho de 2008

E o Batman está chegando...

Esse é só um lembrete... o Batman estréia essa semana, com a última aparição do Heath Ledger. Ainda nem vi o trailer do filme, mas quem viu gostou das cenas de Hong Kong. Filmaram no IFC II, onde passo a maior parte dos meus dias, e que ainda é o ícone da arquitetura local -- enquanto o primo ICC não fica pronto. A crítica da VEJA fica restrita a comentar o Coringa (o próprio Ledger), como era de se esperar... Mas vamos lá, ver as cenas de Hong Kong à noite já deve valer o ingresso. Aliás, neste fim de semana fui jantar no topo do Sheraton de Kowloon, no bar de ostras e vinhos que tem a melhor vista do lado de lá; assim como o Rio, a melhor vista de Hong Kong vem da "nossa Niterói", a trilha dos nove dragões!

Neste blog: ver o post "Bollywood é aqui: Batman in the Kong", que está debaixo dos posts de fevereiro de 2008 (fruto da migração do blog), mas que foi escrito em agosto de 2007, quando o filme foi feito em Hong Kong.

Link para a crítica da VEJA, de onde se pode acessar o trailer do "Cavaleiro das Trevas":

http://veja.abril.com.br/160708/p_162.shtml

Skyline

Hong Kong Skyline (de Kowloon), foto de A.C. Divino

terça-feira, 1 de julho de 2008

"Onze anos", ou como nos tornamos chineses...

Não queria deixar de registrar: hoje faz onze anos que Hong Kong voltou à soberania chinesa. Nas ruas, 30,000 pessoas protestando e pedindo o direito a votar, escolher o CEO (é, aqui temos CEO!), opinar sobre a composição da Dieta. Voto direto ainda é futuro em Hong Kong. Em contraste com a passeata, a cidade respira férias, à espera das competições de hipismo nas Olimpíadas. Enquanto a Bolsa despenca, o povo busca a jogatina no Jockey e atravessa a baía para se esbaldar nas fichas em Macau.

O porto antigo, onde o Príncipe Charles devolveu a bandeira aos chineses, já foi demolido. Deu lugar a mais um aterro, um "Promenade", mais arranha-céus. Do outro lado da baía, o ICC chega aos 118 andares e achata o IFC, com seus 88. Nos jornais, nas ruas e nas bocas só há as Olimpíadas, discute-se sobre como Beijing se prepara para literalmente parar no tempo e renascer, redesenhando a China continental.

E Hong Kong? Ah, quase me esqueci. Aqui construímos a ponte para Shenzhen, o elo final com a terra mãe. Good bye UK.

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"O tempo e o Vento" (versão chinesa...)

Essa época do ano começa o grande teste para os estrangeiros na terrinha. É a estação dos tufões, da chuva de 24 horas, da umidade e do início do calor. Tudo armado para nos fazer acreditar que fomos de mudança para o inferno e ninguém nos avisou. Como toda moeda tem dois lados, é justo dizer que os dias de sol vão também ficando cada vez mais lindos, que a baía fica mais azul, que o ar quente e úmido nos trás uma malemolência que invoca paixões mais básicas: sono, comida fresca, bebida gelada.

Neste último mês tivemos chuva em Hong Kong todos os dias, dois tufões, duas tempestades amarelas, uma vermelha, duas negras... deslizamentos, ruas alagadas, desabrigados, pleitos e reclamações. Tudo muito familiar, mas de certa forma potencializado pelo ar desprotegido das ilhas, a sensação de que o vento vai mesmo carregar tudo, um complexo de Asterix: “Ai, o céu vai cair sobre as nossas cabeças!”...

Neste ano temos a La Niña solta e, do pouco que conheço, só posso dizer que o “a” faz toda a diferença... Em 2007, sob El Niño, as coisas foram bem mais fáceis no início do verão. Em bem mais quentes também...

O interessante é que já me coloquei dentro do vocabulário local: tempestade amarela é para se ver, vermelha é para correr, negra é coisa de se esconder. Nível 3? ...dá para ir às compras, nível 8 é hora de se enfiar debaixo de qualquer abrigo e rezar para que logo passe. Aprendi que tem chuva mais forte do que no Brasil.

Nesse começo de verão, nos meus “Dias Hong Kong” – aqueles azuis, quentes, cheios de cores e de todos os odores das ilhas – sei que é hora de abrir bem os olhos e devorar tudo de uma passada só. E nos outros, aqueles em que a gente olha em volta e mal e acredita, tem um pesadelo e acha que a TV perdeu a cor... é hora de fechar os olhos e, de novo, devorar tudo, tudinho. Hong Kong foi feita para se degustar.

WEATHER PICTURE:_Generic view of Wanchai and Admiralty districts under No. 3 Tropical Cyclone Signal, as observed from high level in Island Shangri-la hotel, Admiralty. Severe tropical storm Fengshen is affecting Hong Kong and is forecast to come closest to Hong Kong early tomorrow. 24JUN08

Nuvens baixas no Victoria Harbour... dia "preto-e-branco"

Aberdeen ensolarada

Aberdeen ensolarada

Pico em dia de sol

Verde e azul: o Pico em dia de sol!