Gente, acordei. Deve ter sido a eleição do Obama que provocou o prodígio. Depois de alguns meses completamente bloqueada (e desblogueada...), sem vontade de escrever. No início achei que tinha sido o ar quente do verão da Toscana, o conforto do interior da Itália, tão brasileiro que quase me fez esquecer a Ásia. Passado o sopro de ar quente, a bagunça familiar das ruas e o desleixo tão familiar do ambiente que me tinham tirado o assunto, continuei sem assunto.
De volta, encontrei Hong Kong tão quente quanto antes, esbaforida com o caos dos mercados, respirando o bodum do verão atrasado, ainda achando que a cor da estação carregava na tinta do que se passava em volta. Opinião? Nenhuma. Novidade? Tantas que acabei por engessar o processamento, embasbacada com o castelo de cartas caindo na minha frente, tão frágil, tão frágil...
Hoje os Estados Unidos chegaram mais perto da África – não dá para esquecer que agorinha mesmo, no Quênia, vivem cinco ou seis meio-irmãos do presidente da América. Pensando bem, há muito ainda que processar antes disso. Há hipotecas não pagas, dinheiro descendo pelo ralo. Há gente do povo perdendo tudo e se perguntando como foi que o nada que tinham de repente se tornou tudo. Tudo o que se foi. E há gente com medo de ter que devolver bônus de sete, oito dígitos. Em dólar.
Da última vez que escrevi aqui, Beijing esperava as Olimpíadas. Os mercados pululavam de dois em dois dígitos e todo mundo ainda preferia só olhar um lado das coisas. Hipoteca era ainda uma coisa muito americana e o Lula ainda brincava de marolinha. Ah, as reservas da China ainda não tinham batido os dois trilhões de dólares, e os Estados Unidos do Bushinho também não se viam estatizando bancos, mandando as liberdades dos mercados às favas.
No meu prédio, os andares de 23 a 27 ainda eram ocupados por um banco (?) chamado Lehman Brothers; as meninas magérrimas, maquiadas e hiper-produzidas ainda passavam horas nos elevadores, incessantemente buscando um bom banqueiro que lhes desse guarita. Ah, e do 30 ao 32 ainda víamos as placas da Nomura Securities, corretora japonesa, pessoas da Nomura japonesa, cheias de formalidades também muito japonesas.
Hoje, ao acordar, percebi que não mais existe aquele Lehman Brothers e que, com exceção do nosso andar e mais um outro, do 23 ao 32 agora passeiam meninas de novo muito magrinhas, maquiadinhas, igualmente buscando aquele banqueiro que lhes dê guarita. Com a marca Nomura de cabo a rabo. Falando japonês com sabor de cantonês, tão desajeitadas nos seus kimonos imaginários! Alguém precisa avisar a elas que o número de zeros à direita, nas contas dos eleitos, diminuiu significativamente... assumindo, inocentemente, que ainda existem os tais banqueiros.
E o 29? Ah, o 29. Ainda ontem ganhou um apêndice. É, ali também. A placa do meu andar de trabalho, como tantas outras, descobriu que tem data de validade. Ainda não mudou. Mas em breve aposto que ganha um hífen e mais oito letras... mas pelo menos esses apêndices vieram com alguns bilhões de valor de mercado a mais. Bilhões que valem trilhões, se considerarmos que o resto do mundo anda mesmo é solapando tudo que pode e o que não pode. Ai, ai. Também, o que se queria? Continuar igual enquanto o mundo todo mudou de eixo e direção? Continuar exalando que “eu fui feito prá você!” enquanto o mundo se virou de cabeça prá baixo em menos de "30 horas"?
Mas ainda há a China. Ah, a China. Pegue-se 100 medalhas, 51 delas de ouro. Continue-se “desacelerando” a uns 8% ao ano. Conquiste-se uma população de 280 milhões de habitantes com renda igualzinha à dos Estados (des) Unidos da América. Ah, e ainda se use 50% do cimento e do aço do mundo. Tudo bem, 30%, vai. Mas mantenha-se metade das gruas do mundo no seu quintal, construindo, quem sabe, um futuro melhor para seus bilhões de cidadãos. Sustente-se a esperança de tantos que acreditam que tudo o que se faz ali ainda há de ajudar a segurar o resto do mundo. E olhe para si, doméstica e global.
Finalmente, aceite o estranhamento maior: acabando a noite, invariavelmente coma melancia com cerveja, mostrando que Shanghai também sabe lançar moda. Suspire e reclame, mas atenda ao apelo do mundo e compre mais uns 200 bilhões de dólares de títulos do Governo do Baraquinho. Junte tudo, respire fundo e cante de novo aquele “Beijing, huan nin nin...”.
Isso mesmo: que cante a China, todos os dias e incessantemente, o hino das Olimpíadas: “Bem vindo a Beijing”... e que bem vindos todos sejam, à ainda intocada "Terra da Esperança". Melancia com cerveja, poluição com pó de ouro. Saravá, meu pai!